Logo depois que estourou a crise monetária internacional e que os bancos da Europa e da Ásia entraram em apuros, eu pensei comigo: tenho umas economias, uns euros que havia comprado na baixa e poderia vende-los na alta, como estava a cotação da época, se quisesse. Mas, como o Lula disse que nós estávamos saudáveis, tive um acesso de bondade e resolvi levá-los para o outro lado do Atlântico e deixá-los por lá, em sinal de solidariedade. Na base do, de euro em euro, juntando os meus minguados com os de milhares de japoneses e de alemães que andam soltos por lá, aos bandos, talvez eu pudesse modestamente auxiliar na crise. Em troca, pensei, ganharia um pouco de distração e cultura. Foi o que fiz, convidei a Leslie e fomos, começando por Madri.
Partindo pelo aeroporto daquela cidade, um espanto, moderníssimo, com quatro módulos de um 1 quilômetro de extensão, cada um deles do tamanho de Guarulhos, o nosso maior. Tem até trem dentro, para deslocamentos de passageiros em trânsito..... Tudo funcionando nos horários marcados desde aqui, na compra das passagens e por toda a viagem. No caminho, nada de malocas ao longo da expressway de asfalto sem um buraco, “nem pra fazer um chá”, que nos levou à cidade. Uma cidade antiga, que conserva ainda o glamour de Agustín Lara e suas canções, dando a impressão que iríamos encontrar a Sarita Montiel cantando La Violetera num dobrar de esquina; e da extasiante música flamenca.. Casario alteroso, com sacadas de ferro, tudo antigo, mas muito bem conservado, misturado à modernidade e às construções monumentais, como o castelo dos reis atuais, o mais bem conservado da Europa, dizem eles, praças e parques de todo o tipo, com múltiplos chafarizes funcionando, tudo bem cuidado, inclusive pelo povo, pois não há lixo nas ruas, só lixeiras aos montes. Gente cordial, que falam entre si com uma veemência de quem está peleando, jeito deles. Muita polícia nas ruas, podia-se andar de madrugada, numa metrópole que não dorme, sem ter cuidados anormais, sem mendicância ou pobreza escancarada. E, sobretudo, sem nunca termos visto um cachorro de rua, a não ser os de porcelana feitos pela arte de Toledo, famosa por seu artesanato.
Em um tour nesses ônibus sem teto, tivemos a oportunidade conhecer melhor todo centro de Madri, tirei uma foto segurando as rédeas do Rocinante, o cavalo de Don Quixote, ao lado de Sancho Pança. Visitamos a Plaza Colón, com ele imponente desde o alto de uma coluna de 18 metros de altura, vislumbrando o Novo Mundo. Afinal, foi lá que os reis Afonso e Isabel, conforme ensinou-nos o Padre Germano, decidiram, depois da queda de Constantinopla, pelos turcos, procurar novas rotas pelo ocidente, o que os levou a mandar Colombo mar a fora, descobrindo assim a América. É essa a constatação da história, aproximadamente.
Digo aproximadamente, por que nenhuma história é bem como se conta; sempre sabemos uma parte da verdade, muita coisa se perde entre um ouvido e outro, entre uma percepção e outra, variando os relatos. E isso eu constatei nos museus que visitamos. Museu não falta em Madri, mas para conhecer tudo tem-se que passar dois dias dentro de cada um; com três grandes dos mais famosos, fora os menores, impraticável. No Museu do Prado, onde estão as obras dos pintores clássicos espanhóis, como Goya, El Greco, Velásquez etc, observei que cada um deles deu uma interpretação artística diferente sobre temas iguais. Por exemplo, sobre o Calvário ou a Morte de Cristo, ou sobre a Anunciação de Nossa Senhora, e outras obras clássicas, cada um pintou seu quadro segundo sua interpretação daquela determinada verdade histórica, muitas delas apenas simbólicas. Se, em uma interpretação pictórica é assim, pontos de vista diferentes, ainda que parecidos, mas nunca iguais e sobre temas iguais, com a história do mundo e das civilizações não pode ser diferente, não só pintadas, mas inicialmente contadas( como na Bíblia) e depois escritas. É na velha base do quem conta um conto etc etc; tudo que temos de informação sobre tudo pode deixar que não foi bem assim. Deve ter havido muito herói que só chegou na hora de desembainhar a espada para o alto, podem crer.
Um parêntese: Hei! Gorda dos Churros, observei, também, que as rechonchudinhas quando pintadas nuas, eram as preferidas, mas com a “ perseguida” sempre escondidinha, como regra. Fecha parêntese.
Aliás, tem um ditado espanhol que conheço há muitos anos, que diz: Todo és verdad, todo és mentira, según el angulo del cristal com que se mira! Pois, assim é a história do mundo. De lá, eu e Leslie fomos para Atenas, na Grécia e suas ilhas charmosas, depois Istambul na Turquia, mas é outra estória....
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
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