sábado, 16 de agosto de 2008

A Gorda Bela

Acuado pela “Gorda dos Churros”, é minha intenção neste artigo fazer uma defesa da maleabilidade da beleza, em especial na defesa das gordinhas, embora delas não tenha nenhuma procuração.
A história nos mostra figuras de mulheres eternizadas de várias maneiras pelos artistas; e as artes revelaram através da pintura e, mais recentemente, do cinema e da fotografia, mulheres que representavam o senso comum de suas épocas, ou de suas eras. Mulheres que os artistas plásticos carregavam no seu consciente e que era produto também do ganho cultural deles, recente e/ou atávico e em um dado tempo. É assim que nas escavações egípcias foram encontradas figuras de mulheres esguias, de longos pescoços e com feições delicadas; já em outras culturas, por exemplo, da África Central, encontramos tribos onde as mulheres tracionam com argolas seus pescoços na busca da beleza e pureza. Nas idades pré-históricas as mulheres apresentavam-se comumente com cabelos desalinhados e em posturas incorretas e na Idade Média apresentavam-se completamente cobertas, com longas vestimentas aparentemente inexpugnáveis, sendo que de seus rostos aparecia tão somente o entre o queixo e a meia-testa, período em que tanto dava se fossem gordas ou magras aos olhos de seus admiradores, pois que só se desnudavam no escuro, supõe-se.
O pavor das gordurinhas a mais, nas moças e senhoras de nossos dias, é de tal monta que criou-se uma grande neurose ocidental em relação a esse odioso detalhe, a ponto de ser um negócio de muita atualidade, que movimenta somas incalculáveis de dinheiro, os regimes neuróticos de emagrecimento, as academias, que assim existem não somente por motivo de saúde, mas para tentar evitar ou combater os temíveis aumentos de perímetros, celulites e depósitos de adiposidades. Sem contar a proliferação, em níveis alarmantes, das cirurgias de lipoaspiração. Um comportamento tão” verdadeiro” e válido quanto o de que um carro novo que, teoricamente, representa parte da retidão de caráter, da personalidade bem formada e plenamente realizada de seu motorista ou proprietário(a).Sem esquecermos o incremento das balanças de farmácia e as de banheiro, as quais, habitualmente, comportam-se como grandes mentirosas, pois que "nunca estão certas". E que são seguidamente evitadas para que se drible a realidade.
Artistas como Rembrant, Matisse, Renoir e outros de seu tempo, colocavam nas telas mulheres cuja plástica nada tinha a ver com a das mulheres de hoje em dia e aquilo era, no entanto, extremamente belo, eram as mulheres gordas da moda, extremamente sedutoras e charmosas. E o que é forçoso concluir-se é que eram obrigatoriamente mulheres atraentes e era, por certo, nesta sua robustez que as mulheres colocavam todo o seu arsenal de persuasão sedutora.
Já nos dias atuais, esse poder de conquista de uma mulher, ilusoriamente, é colocado na sua condição de ser magra ou no mínimo de não ser gorda. E assim passam, às vezes, uma adolescência, uma juventude e uma maturidade inteiras, ou até muito mais além no tempo, escravas de uma inimizade com as calorias que se tornam suas ferozes inimigas. Esquecendo-se que, muitas vezes, e é verdade, tem quem as queira redondinhas como são. E não é incomum que esta luta anti-fita métrica se transforme em neurose fóbica, com características de auto-consumismo. E quanta coisa boa carrega junto a gordura no temperamento saudável da pessoa gorda!!
Certa vez, no início de sua carreira, Jô Soares, conhecido pela sua condição de excepcional gordo e humorista, fez um regime para emagrecer e perdeu muito peso. Neste período veio ao sul para um show e decepcionou o público pela sua grande inexpressão; o gordo inteligente e bem humorado tornara-se um cara sem gordura e sem graça. Tempos atrás, atendi no consultório, uma mocinha, filha de pai e mãe gordos, que embestou de emagrecer por motivos estéticos, fazendo violento e atentador regime alimentar em busca de uma beleza que, geneticamente, nunca seria a dela. Na época, já magra, portou-se como uma morta-viva, evidenciando estar emocionalmente triste e desconfortada. E só voltando mais tarde a sorrir, depois de recuperar seus preciosos quilinhos, passando a ostentar o viço de uma bela adolescente que era....e gordinha.
A beleza da mulher é proporcional ao charme que ela demonstre ao sentir as emoções, ao se portar, ao conversar, ao olhar, ao caminhar, ao se expressar, ao seu tom de voz, à sua capacidade de sugestão, à sua vibração, ao seu mistério; são detalhes igual a armas que tornam muito potente o seu poder de sedução. São coisas de peso que, asseguro-lhes, não dependem do peso corporal. Conheço várias assim, uma delas trabalha lá, outra acolá etc,etc.....e tem uma que não trabalha, só encanta!
Esse é um ponto de vista estético, no entanto, a obesidade como um todo não deixa de se um problema de saúde pública! www.josebrasilteixeira.med.br