terça-feira, 1 de julho de 2008

Sócrates

O maior filósofo da antiguidade nunca escreveu um livro. Diz-se que não sequer leu ou escreveu e, apesar disso, seus discípulos que foram muitos deixaram para a posteridade o relato de suas doutrinas.Era filho de um escultor com uma parteira e afirmava que sua mãe havia recebido a incumbência de parir não filhos e sim idéias. Mediante perguntas e mais perguntas num severo e ordenado diálogo, Sócrates levava seus ouvintes a descobrir as grandes verdades da filosofia. Um de seus discípulos, Platão,escreveu:
---Dou graças aos deuses por ter nascido grego e não bárbaro, homem e não mulher, livre e não escravo, mas, sobretudo, agradeço-lhes por ter nascido no século de Sócrates.
Como este é um texto de curiosidades e anedotas não nos resta mais do que dissertar sobre o anedotário do filósofo, já que de sua filosofia nos faltaria espaço e competência. Sócrates disse um dia a seus amigos:
---Na minha vida tive que lutar contra três grandes males: a oratória, a pobreza e uma mulher. Porém a reflexão me salvou da primeira, a fortuna da segunda. E quanto a terceira, desgraçadamente, o matrimonio me mantém ligado a ela.
A mulher de Sócrates, Xantípa, era uma mulher de áspero caráter e muito irritadiça e Sócrates dizia que a havia tomado em casamento exatamente por isso, pois, conhecendo seu caráter, havia se acostumado a tolerá-la pacientemente com a idéia de chegar a perfeição no domínio de si mesmo e saber assim tratar com qualquer pessoa de difícil temperamento.
Um dia cansado da falação interminável que lhe movia Xantípa, para não ouvi-la mais saiu de casa e se sentou num degrau da porta. Mas Xantípa irritada por não ter podido desabafar-se com seu marido, se vingou dele esvaziando em sua cabeça um balde de água suja. E Sócrates não mais que isso, disse:
---Depois de tanto trovejar, não me estranha que agora chova.
Seu discípulo Alcebíades lhe perguntou se não se cansava de ter que agüentar sempre os gritos de sua mulher, ao que ele respondeu:
---Estou tão habituado a eles que não me fazem mais efeito que os ruídos de uma roda de carroça.
Um dia que o filósofo estava comendo com um de seus amigos, Xantípa, que estava num dos seus maus dias, jogou no chão os pratos e copos que estavam sobre a mesa.O amigo indignado, se levantou com intenção de ir-se embora, mas Sócrates o tomou pelo braço e disse:
---Porque te indignas?Ontem quando estávamos comendo em tua casa, uma das tuas galinhas subiu na mesa e derrubou todos os pratos de comida. Não nos rimos todos? Pois ri agora também que a coisa é a mesma!
Talvez por isso, quando lhe perguntavam se casar era uma coisa boa,o filósofo respondia:
---Te cases ou não te cases, te arrependerás de qualquer modo.
Um dia Alcebíades tinha que pronunciar um discurso na Assembléia e tinha receio de enfrentar-se com o público. Sócrates então lhe disse:
---Ouve Alcebíades, tens medo de falar com o carpinteiro Aristeu ou com o sapateiro Leandro?
---Claro que não.
---Então, porque te preocupa em falar-lhes quando estão juntos?
Sócrates havia iniciado a ser escultor como seu pai e parece que com certa habilidade, mas abandonou a idéia logo,dizendo:
---Parece-me ser uma grande besteira que um homem perca tanto tempo para dar a um pedaço de pedra o aspecto da figura humana, quando a maior parte dos homens fazem todo o possível para parecer pedaços de pedra.
Em sua vida colocou os maiores esforços para vencer os impulsos da ira. Uma vez um escravo o atiçou sobremaneira e o filósofo lhe disse:
---Se eu não estivesse irritado e colérico, te pegaria.
Um dia encontrou um jovem que lhe pareceu, por sua fisionomia, inteligente, bom e modesto. Parou-o na rua, segundo seu costume e começou a interrogá-lo:
---Onde se encontram as coisas necessárias para a manutenção da vida?
---No mercado, disse o rapaz.
---Muito bem. Mas onde se aprende a ser bom e virtuoso?
---Não sei.
---Pois bem, as duas coisas que te perguntei, a segunda é mais importante que a primeira.Vem comigo e te ensinarei.O jovem, que se chamava Xenofonte, o seguiu e se tornou um dos seus maiores discípulos e que depois da morte de Sócrates escreveu: "Apologia"e "Recordações de Sócrates".