Como todos os grandes homens, Sócrates teve muitos inimigos que não lhe perdoavam a influência cada vez mais crescente que exercia sobre seus discípulos e, em conseqüência, sobre a vida dos atenienses. Acusaram-lhe de delitos contra a religião e de perversão da juventude, o que hoje os historiadores não julgam como fatos comprovados.Tais imputações chegaram até os tribunais do povo e por maioria arrasadora foi, democraticamente,condenado à morte e, comprovava-se assim, que uma injustiça aprovada pela maioria, não deixa de ser uma injustiça, assim como uma estupidez cometida pela maioria não deixa de ser uma estupidez.
Uma vez condenado à morte, sua mulher, Xantipa, foi visitá-lo na prisão, chorando. E Sócrates para consolá-la, lhe disse:
----Não chores, Xantipa.Os juízes que me condenaram à morte, também eles estão condenados a morrer pela natureza.
----Sim, mas a ti te condenaram injustamente e é isto que me aflige!
----E eu te pergunto, estarias, então, mais contente se me tivessem condenado com justiça?
Quando chegou a hora da sua execução, que aconteceria pela ingestão de uma porção de veneno, cicuta, Sócrates, com grande solenidade, falou aos seus discípulos sobre a temperança, a justiça, as virtudes, a liberdade e a verdade. E não esquecendo nada, disse:
----No que diz respeito a vós, mais tarde farão também esta viagem, quando a cada um lhes chegue a vez e o momento. Como diria um herói de tragédia, a mim, neste instante em que o destino me chama, com efeito é chegada a hora em que devo banhar-me. Creio, sim, que é preferível tomar o banho antes de tomar o veneno e evitar com isso que as pobres mulheres tenham pena de lavar um cadáver.
Platão sobre o fato, narra: "Uma vez que tivesse tomado o banho, lhe trouxeram seus filhos e seus parentes. Falou com eles na presença de Critão, fazendo-lhes recomendações. Logo os dispensou e voltou a ter com seus discípulos. O sol estava já a ponto de ocultar-se e ao voltar do banho e da conversação familiar, sentou-se e a conversa durou então muito pouco, pois aproximou-se o servidor dos Onze, se apresentou e se chegando a Sócrates, lhe disse:
----Sócrates, a ti não terei que reprovar, o que, não sem razão, reprovo a outros que se mortificam e se maldizem quando venho a convidá-los a tomar o veneno por ordem dos magistrados. Tu, pelo contrário, observei repetidas ocasiões desde que estás aqui, que és o homem mais generoso, mais doce e o melhor dos que chegaram a este lugar. Eis porque estou seguro de que não te enfadarás comigo, se não que contra os responsáveis por tua condenação, aos quais conheces muito bem. Por conseguinte e como já sabes, o que venho anunciar-te, aceites o meu adeus e trata de suportar da melhor maneira o que te é inevitável. Dito isso, o arauto virou-se e sem poder conter as lágrimas,se foi.
Então Sócrates, dirigindo-se a ele, lhe disse:
----Adeus para ti também. Farei tal qual me dissestes. E voltando-se aos discípulos, acrescentou:
----Que bondade a deste homem! Viram? Durante todo o tempo em que aqui estive veio ver-me com freqüência para conversarmos.Sim, é um homem excelente de todo o modo. Agora mesmo, vejam a generosidade com que por mim chora! E acrescentou:----Então Critão, obedeçamo-lhes! Que me tragam o veneno se está triturado. Se não,que o triturem...
----Mas, Sócrates!--argumentou Critão: --Se não me engano o sol ainda está sobre as montanhas e não terminou de ocultar-se! Ademais, sabidamente os outros não bebem o veneno senão muito tempo depois que os convidam a fazê-lo e só depois de haverem comido e bebido copiosamente. Inclusive alguns, só depois de terem um gozo íntimo e derradeiro com uma pessoa de sua escolha. Não te apresses, pois, que todavia há tempo.
----Natural é -retrucou Sócrates- que as pessoas a que te referes
se conduzam dessa maneira, já que assim acreditam estar ganhando alguma coisa. No que a mim toca, natural é também que eu não faça como elas, posto que creio que nada ganharei bebendo o veneno um pouco mais tarde. Ao contrário, me tornaria ridículo frente a mim mesmo apegando-me à vida e tratando de economizar uma coisa que já não me pertence. Obedece-me, pois, sem contrariar-me.
Ouvindo Critão a estas palavras, fez um sinal a um dos escravos que estava junto a ele e que dentro em pouco trouxe o responsável que lhe ministraria o veneno, o qual o trazia triturado em uma taça. Ao vê-lo, Sócrates disse:
----Vamos ver, amigo, diga-me o que devo fazer, pois que aqui és o senhor das coisas.
----Uma vez que tenhas bebido, deves unicamente passear até que sintas peso nas pernas e então, depois, deitar-te e o veneno desse modo operará por si mesmo. E dito isso lhe entregou a taça.
Com serenidade perfeita, Sócrates a pegou sem tremer, sem mudar de cor ou de semblante e olhando de cima como de costume, lhe perguntou:
----Diga-me, é permitido verter um pouco deste líquido para algum deus?
----Nós trituramos exatamente a quantidade que deves beber.
----Entendi, disse Sócrates. Mas, ao menos se pode pedir aos deuses que facilitem a passagem deste mundo ao outro.Pois bem, tal é a minha súplica e oxalá me atendam!
Apenas dito isso, levou a taça aos lábios e entornou-a até a última gota com uma tranqüilidade e calma perfeitas.
Ainda segundo Platão: "Até ali todos os discípulos havíamos sido capazes de conter as lágrimas à custa de grande esforço, mas ao vê-lo beber e logo que terminou, já não fomos donos de nós mesmos. Ao que me tocava, deixei correr à torrente as minhas e cobrindo a cabeça comecei a vertê-las sobre mim mesmo, pois não era a desgraça do condenado, senão a minha, que lamentava, ao ver-me privado de um companheiro tal qual ele. Por certo, já antes de mim,Critão, impotente de deter seu choro, se havia levantado disposto a sair, enquanto Apolodoro, que desde antes não havia deixado de chorar um só momento, se pôs a gritar de tal modo que seu pranto e lamentações partiam o coração de todos os presentes, menos de Sócrates, que nos disse:
----Mas o que lhes ocorre? Vocês são o que não há...!Se, precisamente, mandei embora as mulheres, foi para evitar seus lamentos exagerados e porque ouvi dizer que era melhor, para o momento, palavras de bom augúrio.Portanto,tenham calma,sejam valorosos!
Ouvindo estas palavras, todos sentiram vergonha e deixaram de chorar. Ele,de sua parte, se pôs a andar e quando declarou que suas pernas pesavam, se deitou de costas, como o homem lhe havia recomendado.Então, o que lhe havia dado veneno, começou a tocar-lhe com as mãos a cada momento, examinando seus pés e suas pernas e logo beliscando um pé, perguntou-lhe se sentia algo. Sócrates respondeu que não. Em vista disso, fez o mesmo com a parte baixa das pernas e, subindo depois, fez compreender aos presentes que começava a esfriar-se e a tornar-se rígido e declarou que quando o frio alcançasse o coração, Sócrates morreria. Já a parte correspondente ao baixo ventre estava quase gelada, quando Sócrates, descobrindo o rosto que havia coberto, disse,e estas foram as suas últimas palavras:
---Critão, devemos um galo a Esculápio. Não te esqueças de lhe pagar esta dívida!
----Assim será feito. Vê se tens mais algo mais a dizer-nos.
A pergunta de Critão ficou sem resposta. Logo ele teve um sobressalto e o homem então o descobriu totalmente. Seus olhos estavam imóveis.Vendo-os, Critão os fechou, assim como a boca.
terça-feira, 1 de julho de 2008
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