Há muitos anos atrás, mais de trinta talvez, fui passar alguns meses nos Estados Unidos e lá instalei-me como quem fosse morar ; ou seja, decidida e lentamente passei a viver em um condomínio junto com outras pessoas com a mesma intenção transitória, todas elas de distintas nacionalidades. Nas ruas e nos supermercados, prestava atenção a todos os detalhes que, afinal, fariam parte de minha nova vida a partir dali e uma das coisas que inicialmente me chamou a atenção foi que lá tinha de tudo que um dia eu já tinha visto, convivido ou consumido por aqui, a ponto de que quando escreví uma carta a familiares relatei que lá só faltava a cachaça, o fumo em rama, a erva mate e a linguiça artesanal, dessas nossas que saem das tradicionais matanças de porco. Saudosismo tupiniquim!
Entretanto, chamou-me particular atenção, e sobremodo, as coisas com as quais passei a conviver e que eram novidades inexistentes ou muito raras no Brasil. As quais, depois de minha volta ao fim de dezoito meses e ao longo de muitos anos, muito lentamente eu as via, lançadas em forma de progresso, ao entrarem em uso por aqui. E foram centenas destes avanços, que lá existiam àquela época e que eu desconhecia.
Falando de objetos domésticos, por exemplo, no apartamento simples mobiliado em que morava, o mesmo era equipado com forno micro-ondas e fogão elétrico. O carro da moda, mais de trinta anos atrás, era o Toyota Corolla e os japoneses acabavam de enfrentar a indústria automobilística americana. Ouvia-se falar em freios ABS e Airbag. Nos hopitais por onde andei, todos eles eram providos de investigação por Tomografia Computadorizada e os estudos e pesquisas eram financiados pelo próprio hospital, principalmente no maior deles(mas não muito grande), dentro de sua estrutura. E em particular, na área da medicina, foram muitos os avanços, que eu só veria por aqui muitos anos depois, ou mesmo alguns que ainda não ví. Naquele tempo, as previsões meteorológicas apresentavam-se com a maior credibilidade possível e as pessoas planejavam-se baseadas em seus dados; e outra coisa que me chamava a atenção era pontualidade das programações da TV, permitindo que se acertasse o relógio em seus começos e seus finais. Na mesma televisão, as convenções políticas apareciam em forma de grandes epopéias consagradoras, com balões multicoloridos jogados em grande profusão do teto de grandes ginásios, igualzinho como muito tempo depois passou a ser aqui; claro, com o desconto da falta de autenticidade.
E já que estou falando de TV, muito tempo depois de meu retorno e depois que novamente voltei lá, anos mais tarde, presenciei um programa chamado "Late Show", tarde da noite, feito por um apresentador muito bem humorado,David Lettermann, sem barba branca e com peso normal, acompanhado por um conjunto musical com o qual interagia durante a apresentação, baseado em entrevistas com pessoas interessantes e tendo ao fundo um painel com uma vista noturna da cidade de Nova York. Voce já viu algum programa aqui no Brasil semelhante a esse? Pois, preste a atenção.
Ainda da primeira vez, presenciei nos jogos preferidos das multidões, o Football, que é completamente diferente do nosso, aquelas menininhas abanando chumaços coloridos feitos de papel na abertura das partidas e depois colocadas ao longo das laterais dos campos, conhecidas como "cheer-leaders" ou animadoras de torcidas. Chamavam especial atenção, as quais só recentemente apareceram por aqui em cópia de gosto duvidoso.E mais, existiam parques aquáticos com toboágua e tuboàgua, piscina com ondas etc. E tudo o que se encontra hoje como lançamentos nos maiores parques de diversão brasileiros já existia por lá, naquele tempo.
Não bastasse todas essas novidades e muitas mais, ainda pagava-se as contas pelo correio de forma confiável, entregando direto ao carteiro; usava-se correntemente caixas automáticos em bancos, observava-se que remédios que eram usados no Brasil, lá eram proibidos; tomava-se refrigerante e cerveja em lata e nas "stores" vendia-se camisinha lubrificada e/ou com sabor. Há mais de trinta anos atrás, pode? Pode.
E como se não bastasse tudo aquilo, a cultura geral do americano nos oferecia, ainda, todos os domingos, ao vivo ou pela TV, apresentações de pastores inflamados invocando e ameaçando o seu público com o fogo de Satanás e aprisionando fiéis em verdadeiras multidões, prendendo-os pelo temor de um deus que, certamente, não é mesmo meu e talvez o seu, de amor, justiça, bondade e serenidade.
Depois, de volta ao Brasil, ao longo de muitos anos em que aquelas práticas foram sendo introduzidas, algumas que não chegaram até os dias de hoje em nossa cultura de absorção passiva e desnuda de criatividade, é que pude ver o quanto nós somos um quintal onde a patuléia imita, usa de segunda mão e até serve de caldo de cultura em experiências e procedimentos onde os rigores da lei americana não permite avaliação, por deletéreos. Vide inseticidas que lá são obsoletos ou banidos.
Mas, o que mais impressiona é que somos assim por sermos ainda submissos, culturalmente. E somos assim por não termos a cultura da instrução, do ensino e da curiosidade científica, entre outras causas. Por sermos pobres por que, inicialmente, quando éramos colônia, formos roubados e até hoje não tivemos capacidade de desnudar nossas riquezas de forma séria, sóbria e usufrutável, como soi ser a uma grande nação e seu povo supostamente soberano. E conformados com a dimensão nacional. Estamos, somente, engatinhando em pesquisa e ciência para poder acompanhar o que os tempos modernos se nos apresentam. E por tal, somos obrigados a absorver culturas mais evoluídas, em tudo, desde a música, em quase todas as tecnologias, no conhecimento, no parâmetro monetário, no comércio de "chapéu na mão " que nos é próprio, na medicina, na indústria farmacêutica, enfim, em quase toda a tecnologia. E será assim por muito tempo!
E, olhando-se bem, a globaliação, boa em muitos aspectos e péssima em outros tantos, é assim mesmo: inexorável, inevitável, sem recuo, mas desequilibrada. Com alguns países sendo mais promotores e outros sendo muito mais absorventes, como quem recebe um pão duro de esmola e sai quieto, pois quem sabe manda e quem não sabe é mandado. No tocante ao Brasil, nesse particular, é difícil não compará-lo ao que segue: em muitos casos nos parecemos a um grande mangolão dotado de algumas potencialidades, mas que ainda come pela mão dos outros.
terça-feira, 22 de abril de 2008
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