terça-feira, 22 de abril de 2008

A gorda bela

Porque será, realmente, que a beleza deva estar restrita a 90 cm de busto, 90 cm de quadrís, tanto de coxas e cintura de pilão, além de todo o conjunto ser encimado por um rosto harmônico, enigmático, misterioso etc.? Certamente, é por mera convenção cultural dos nossos tempos, posto que aprendemos desde pequeno que a beleza é uma mulher assim, não é verdade? Levado, por certo, pelas imagens que aprendemos desde a tenra infância, que a beleza é aquilo que nos é chamada a atenção, acrescida das emoções que as imagens trazem na sua companhia. E só por este conceito já se vê que a definição de tal virtude corre o risco de ser um tanto maleável.
É minha intenção neste artigo fazer uma defesa da maleabilidade da beleza, em especial na defesa das gordinhas, embora delas não tenha nenhuma procuração...... e, ao final, será que consigo?
A história nos mostra figuras de mulheres eternizadas de várias maneiras pelos artistas, e as artes revelaram através da pintura e mais recentemente do cinema e da fotografia, mulheres que representavam o senso comum de suas épocas, ou de suas eras; mulheres que os artistas plásticos carregavam no seu consciente e que era produto também do ganho cultural deles, recente e/ou atávico e em um dado tempo. É assim que nas escavações egípcias foram encontradas figuras de mulheres esguias, de longos pescoços e com feições delicadas; já em outras culturas, as negras da África Central, encontramos tribos onde as mulheres tracionam seus pescoços na busca da beleza e pureza; nas idades pré-históricas as mulheres apresentavam-se comumente com cabelos desalinhados e em posturas incorretas e na Idade Média apresentavam-se completamente cobertas, com longas vestimentas, aparentemente, inexpugnáveis, sendo que de seus rostos aparecia tão somente o espaço entre o queixo e a testa, período em que tanto se dava se fossem gordas ou magras aos olhos de seus admiradores, pois que só se desnudavam no escuro, supõe-se.
O pavor das gordurinhas à mais nas moças e senhoras de nossos dias é de tal monta que criou-se uma grande neurose ocidental em relação a esse odioso detalhe, a ponto de ser um negócio de muita atualidade movimentar somas incalculáveis de dinheiro, os regimes neuróticos de emagrecimento e as academias, que assim existem não somente por motivo de saúde, mas para tentar evitar ou combater os temíveis aumentos de perímetros, celulites e depósitos de adiposidades. Um comportamento tão verdadeiro e válido quanto a de que um carro novo representa parte da retidão de caráter, da personalidade bem formada e plenamente realizada de seu motorista ou proprietário(a).Sem esquecermos o incremento das balanças de farmácia e as de banheiro que comportam-se como grandes mentirosas, pois que "nunca estão certas". E que, ou são visitadas amiúde ou são seguidamente evitadas para que se drible a realidade.
Artistas como Rembrant, Matisse, Renoir e outros de seu tempo, colocavam nas telas mulheres cuja plástica nada tinha a ver com a das mulheres de hoje em dia e aquelas eram, no entanto, extremamente belas, eram as mulheres gordas da moda, extremamente sedutoras e charmosas; e assim eram também as matronas descritas por Guy de Montpassant em seus livros, gordas com cara redonda e brilhosa, engorduradas como se houvessem passado a noite inteira fritando bife. E, o que é forçoso concluir-se, é que eram obrigatoriamente mulheres atraentes e era, por certo, nesta sua robustez ,que as mulheres colocavam todo o seu arsenal de persuasão sedutora.
Já nos dias atuais esse poder de conquista de uma mulher, ilusoriamente, é colocado na sua condição de ser magra ou no mínimo de não ser gorda. E assim passam, às vezes, uma adolescência, uma juventude e uma maturidade inteiras, ou até muito mais além no tempo, escravas de uma inimizade com as calorias que se tornam suas ferozes inimigas. Esquecendo-se que, muitas vezes, e é verdade, tem quem as queira redondinhas como são. E não é incomum que esta luta antifita métrica se transforme em neurose fóbica, com características de autoconsumismo. A anorexia nervosa é excesso doentio dessa neurose. E quanta coisa boa carrega junto a gordura no temperamento saudável da pessoa gorda!! Certa vez, no início de sua carreira, Jô Soares, o qual já era conhecido pela sua condição de excepcional gordo e humorista, não sei se por motivos de saúde ou não, fez um regime para emagrecer e perdeu muito peso. Neste período veio ao sul para um show no Teatro Leopoldina, em Porto Alegre, deixando naquela oportunidade, decepcionado o público que lotava a casa, pela sua grande inexpressão; o gordo inteligente e bem humorado tornara-se um cara sem gordura e sem graça. Tempos atrás, atendi no consultório, uma mocinha, filha de pai e mãe gordos, que embestou de emagrecer por motivos estéticos, fazendo violento e atentador regime alimentar em busca de uma beleza que geneticamente nunca seria a dela. Quando da consulta, magra, portou-se como uma morta-viva, evidenciando estar emocionalmente triste e desconfortada. E só voltando mais tarde à sorrir depois de recuperar seus preciosos quilinhos, passando a ostentar o viço de uma bela adolescente que era....e gordinha. Ou ainda, os leitores já imaginaram a Claudia Gimenez magra? Será que teria a mesma graça? Certamente que não, e assim por diante.
A beleza da mulher é proporciaonal ao charme que ela demonstre ao sentir as emoções, ao se portar, ao conversar, ao olhar, ao caminhar, ao se expressar, ao seu tom de voz, à sua capacidade de sugestão, à sua vibração, ao seu mistério; são detalhes iguais a armas que tornam muito potente o seu poder de sedução. São coisas de peso que, asseguro-lhes, não dependem do peso corporal. Conheço várias assim, uma delas trabalha lá, outra acolá etc,etc.....e tem uma que não trabalha, só encanta! Tchan,tchan,tchan,tchan....