Há tempos entendo as formas pelas quais o ser humano sucumbe na sua existencia: refiro-me sómente às formas genéricas envolvendo doenças adquiridas às expensas de comportamentos; sem dúvida, às vezes verdadeiros suicídios dissimulados. Mas, dando atenção ao que se vê e ouve nos noticiários de todos os dias, é forçoso admitir-se que esse léque se abre de forma mais ampla. Sobre a criança de um modo geral, exercem grande atração alguns elementos naturais como a água, o fogo, a terra, o vento, alguns de maneira quase hipnótica; e a esses ela se entrega em um ralacionamento inocente sem medidas que avaliem o grau de risco.Quando gurí, fugiamos para tomar banho nas pedreiras que existiam nos arredores da cidade e, movidos pela curiosidade, nos banhávamos às escondidas dos incomodos bons sensos de nossos pais. A grande curiosidade era sentir a água geladinha mergulhando à fundo.Vez por outra, no verão, era uma pescaria que também tinha seus riscos,"tira as botas e as bombachas para entrar no bote!" diziam-nos apreensivos os mesmos pais,, os quais um dia também haviam se arriscado. Até que certa vez morreu um nosso conhecido. Para nós uma comoção ainda inocente e de bom proveito para quem aprendia com fatos traumáticos.
O risco faz parte da vida e existem aquelas pessoas que se arriscam, como os profissionais, para que outras pessoas sintam, nas suas expectativas individuais, o suspense e a emoção tão necessários ao equilibrio emocional. Assim é, como exemplos, a Esquadrilha da Fumaça que,em consequência de muito treino e de estudos científicos, sabem que se estiverem sempre afinados, suas chances de erro chegam quase a zero. Houdini, um mágico americano dos anos 40, fazia coisas inacreditáveis e prendia o fôlego de multidões com suas peripécias minuciosamente calculadas; e mesmo assim numa última vez, vítima de um pequeno erro, morreu afogado no fundo do mar, dentro de uma caixa de madeira envolta com grossas correntes.
Mas, o que me moveu a fazer esse comentário foi a notícia daquele menininho de 8 anos que morreu no poço dum elevador, no Rio. Como se pode observar, as crianças na "hora de sestia" de seus pais ou na simples ausência destes, em cidades grandes, experimentam brincadeiras diferentes daquelas do meu tempo de gurí, certamente de menor risco.E como sempre foi, parece que tal exerce uma atração mórbida, quase hipnótica, pois nesse caso dava para notar que um dos meninos, companheiro do acidentado, referia-se ao fato com sendo uma coisa que deveria ser evitada dalí em diante, como demonstrava sua cara de assustado; já outro, sem disfarçar uma ponta de orgulho por estar vivo, dizia na TV:--Foi emocionante!!
Com o conhecido "surf ferroviário" praticado desde alguns anos nos trens da Central do Brasil ocorre o mesmo, com igual risco e as mesmas ocorrências de morte de seus adeptos e nem porisso a sua prática declina.
Até parece que as pessoas, por viverem num centro mais populoso, possuem valores diferentes dos nossos em relação à vida, conformes que ficam com a brevidade e transitoriedade dessa. Na realidade, assim não é, mas a maior verdade é que essas pessoas de perpectivas nebulosas não querem atravessar sua existência sem sentir emoções, sejam quais forem; e são essas, as emoções, que garantem a sensação de estar vivo e se rendem ao poder sedutor que elas exercem na valorização das próprias vidas. E se entregam ao êxtase, com um risco incalculado, para não correrem outro risco, o de viverem em branco suas faltas de oportunidade com emoções mais saudáveis.
terça-feira, 22 de abril de 2008
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