Agradeço de todo o coração a oportunidade que esta crônica me dá para dizer o que segue: se um dia eu fosse entrevistado por algum veículo de comunicação ao vivo e perguntado, em matéria de criação, qual a pior coisa feita na Brasil nos últimos 35 anos, eu diria sem deixar cair a bola “---O rock brasileiro; desafinado, sem melodia, sem harmonia, de conteúdo duvidoso, sem inspiração, de poesia dúbia e escassa, ruidoso, barulhento e audiologicamente nocivo”. Com todo o respeito às exceções, bem como à maioria dos de mau gosto.
E, por outro lado, esta é uma opinião que direcionou a minha atenção para uma novela que vinha sendo veiculada por aqueles dias. A qual reacendeu-me o prazer de ouvir boleros, mambos, chá-chá-chás e outros ritmos caribenhos e centroamericanos. Além, é claro, do prazer de ver reativada, ao menos na tela, a dança de par em toda a sua sensualidade e romance.
Você se lembra da dança de par? Se fazia tempo que não via, ligasse a TV à noitinha, ou aos doimngos a à tardinha, pois até o Fautão a está estimulando como verdadeira raridade. E, por favor, não procure aclarar suas memórias assistindo bailes contemporâneos, pois os magros de hoje são uma negação neste quesito; ainda que assim nem tanto sejam as magras, uma vez que as "pobres de par" chegam a dançar umas com as outras, à espera de atitude máscula.
Aos que são ou foram do ramo, vou tentar trazer lembranças de 50 anos atrás, falando de orquestras, cantores e conjuntos que animavam bailes, noites afóra, clubes a dentro, na Bagé daquele tempo.
Lá por 1960, o conjunto mais freqüente a embalar as reuniões habituais dos sábados era o do IMBA (Profª Geoconda Figueiró, Terezinha Figueiró, o Moreno na bateria, o Prof. do Acordeón,[que ainda dá aulas]etc). De vez em quando, vinha de fora o “Santa Cecília Serenaders”, lembram. E para bailes mais encorpados, tipo Exposições(3-4noites) vinham Sylvio Mazzuca, Waldir Calmon, Norberto Baldauf, Orquestra Tabajara e outras do padrão. Sem deixar de citar os cantores solistas: Lucho Gatica, Gregório Barrios, Jamelão, Nelson Gonçalves, precursores do romantismo hoje remanescente em Júlio Iglesias e em poucos mais. Esqueci alguém? É possível. Isto sem falar nas orquestras portenhas, as “típicas” castelhanas, Donato Raciatti, Héctor Varella, Mário Raciatti e outros, com seus bailarinos(as), os quais aqui vinham aprender alguns passos com o então Tenente Segredo e sua bela Magda.
Diferente de hoje, quando os jovens ficam num canto a espera de melhores oportunidades em bailes de pouco romantismo, que me afugentaram dos salões por começarem quase às 2 hs da manhã e acabarem cedo. Naquele tempo, quando aos primeiros acordes, no máximo depois de um minuto, o Oriovaldo Álvarez, lembram?, o famoso Vadinho, já falecido, dançando na ponta dos pés para aumentar a estatura, abria o baile fazendo uma volta inteira bem por fora para mostrar a cara e o par, como um costumeiro deflorador dos salões. Depois dele, a ordem era cada um buscar seu par ou fazer uso bailante do seu cativo.
A dança é um ato biológico de que muitos animais, insetos e vertebrados, fazem uso para demonstrar sua disposição sexual nos períodos apropriados. E que o homem adotou como arte, social e culturalmente permitida, mas que, marcadamente, manteve as características de origem primitiva. A dança de par que os ambientes dos clubes propiciavam, então e que em muitos lugares ainda é, a exemplo de outras culturas, traduzia-se em uma forma socialmente aceita e musicada de aproximação, para comunicação entre homens e mulheres, seguidamente em tom romântico. E onde muitas vezes a sensualidade se fazia presente, com a permissão moral da sociedade da época. Sem deixar de reconhecer, em estágio um pouco mais avançado, a existência de um certo grau de erotismo entre alguns casais. E foi assim que nasceu o “bate coxas”, o “cruza coxas”, o “entre coxas”..... e outros. Quê saudade!!
terça-feira, 22 de abril de 2008
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