A riqueza, vista como ausência de carências e, muito além disso, como sinônimo de fartura e até felicidade correlata, é uma condição que conduz a muitos enganos. Esteja-se incluído na sua graça ou fora dela. É uma circunstancia sobretudo polêmica e indutora de erros, tanto para quem a contempla ou como para quem a vive, sempre repleta de caminhos que perigam levar ao desvirtuamento. Além de ser uma condição que desde os tempos bíblicos induz a errôneos preconceitos, basta ver o que lá está escrito, de que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. No entanto, pelos grandes riscos que oferece, a riqueza é também uma geradora de formidáveis virtudes em quem a possui e, como a pobreza, é cheia de preocupações.
O pobre muitas vezes enxerga o rico com desprezo, desde que seja visto como um espelho da sua incapacidade de sê-lo, mas também vê a ele e/ou à sua riqueza como um paradigma fundamental, um objetivo fantasioso de vida a ser alcançado, num ato muitas vezes fora da sua realidade, por um erro de avaliação de suas reais possibilidades. Além de ver, na riqueza, a chance de ter uma felicidade que muitas vezes habita-lhe o entorno em profusão e que não percebe. Uma ilusão, um engano, pois se só os ricos fossem felizes, esta sensação, que é patrimônio humano de um estado de espírito especial e que habita, ocasionalmente ,em todos nós, não existiria nos pobres que não os invejam. E esta, a inveja, muitas vezes é uma dos pecados que a riqueza faz brotar em quem a admira a ponto de embriagar-se. E que, de sua parte, leva ao desprezo como um subproduto.
O valor anormal e desviado que o pobre dá à riqueza e às coisas materiais, pode levá-lo a um caminho inidôneo e sem escrúpulos para alcançar fragmentos desta riqueza e, porisso, a entregar-se ocasional ou regularmente aos descaminhos, como ao furto e roubo, bem como a outras maneiras pouco ortodoxas de apropiação, como pedir emprestado e não devolver. Um outro defeito gerado no pobre pela riqueza alheia é o consumismo, ou seja, o hábito de possuir coisas que são características de quem as pode adquirir sem esforço. E pior que isso, muitas vezes em detrimento de coisas que fazem parte do seu mundo mínimo necessário, coisas como o pagamento do aluguel da casa em que mora, da alimentação, do vestuário e da escola necessária aos filhos. Em troca de um conforto caro e fora da sua primeira linha de necessidades.
Em compensação, é no pobre onde mais claramente nasce a noção do valor do dinheiro. Sempre que possui um meio, é ele muito melhor pagador que o rico(os médicos sabem disso) e neles a gratidão é mais expontânea, bem como a noção de poupança é mais clara e evidente, por provável pressão da necessidade. E, também, o pobre tem condições de mostrar muita dignidade com essas coisas, experimentando uma felicidade que não sabe muito bem definir.
E o rico? Este, se já nasceu assim, vem ao mundo sem conhecer muitas coisas da vida real e da vida de relação. A humildade é uma delas, esta uma virtude da introspecção e do ato de pedir, inclusive perdão, o que para quem tudo tem, ou pensa que tem, às vezes torna-se difícil. Este tipo de rico, que se pode chamar de circunstancial, facilmente torna-se um perdulário, arrogante, com luxuria e pouco caridoso. Além de, por não ter noção exata do ato de ganhar e juntar, poder tornar-se um esbanjador. Ainda que, em numerosos deles, a fartura não lhes faça muita diferença ou lhe modifique a personalidade e a conduta previamente bem estruturada em boas virtudes.
No entanto, se se trata de uma riqueza adquirida com um longo e pesado esforço de anos de trabalho honesto, como muitas vezes acontece, as virtudes que brotam se sobressaem aos defeitos e estes não se tornam tão prejudiciais aos indivíduos em questão e nos circunstantes. Caridosos, por terem provavelmente conhecido a carência, mas com muito apego ao patrimônio e ao dinheiro, por saberem o preço que têm, podem, entretanto, se tornar avarentos.
Ainda que, de um modo geral, nos ricos, por terem mais evidencia que o despossuído, os defeitos aparecem mais claramente, muitas vezes como um preço pago à sua notoriedade e outras vezes por ocorrência do sentimento de inveja e até de maledicência.
Como se vê, a riqueza ou pobreza são duas condições ao redor das quais gravitam muitas virtudes e outros tantos pecados capitais, ao mesmo tempo que se constata que ambas tiram o sono de quem delas padece. E, na verdade, tanto a riqueza quanto a pobreza tem suas necessidades administrativas e o convívio com elas depende demais da capacidade do indivíduo e seu íntimo. Ademais, errou o ex-Pres. Fernando Henrique quando disse certa vez que ser rico é muito chato. Ou ele quis enganar o eleitorado ou não se deu conta que chato mesmo é ser incompetente para viver qualquer vida, independente de sua regência material.
terça-feira, 22 de abril de 2008
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