terça-feira, 22 de abril de 2008

Abre a cortina do passado....

As nossas memórias, talvez porque possamos ruminá-las, redigerí-las e por conseqüência, realimentar-nos das emoções que lhes acompanham, boas ou más, constituem-se na mais fantástica capacidade da nossa engenharia eletroquímica cerebral. Em constante estudo pela emergente e atual neurociência, a memória acompanha a evolução das espécies sobre a terra, a qual concedeu-nos um cérebro avançado, e que acabou criando este ser controvertido e perfeito que é o homem. As memórias estão, também, intimamente relacionadas às emoções por mecanismos específicos, o que é fácil de perceber-se, pois quanto mais forte for a emoção com que vivenciamos um evento, dito inesquecível, maior a sua fixação nas estruturas cerebrais específicas, resultando em um substrato a que nos referimos como sendo “uma lembrança”.
O que é ser poeta! Ary Barroso referia-se, em sua “Aquarela” emblemática, ao ato de lembrar-se de algo como se abríssemos a cortina do passado; pois é o que vou tentar fazer com vocês.
Dependendo do angulo que se olha, trinta anos pode ser ou não ser pouco tempo. Por exemplo, não seria pouco se tivéssemos que esperar de forma angustiada que um tempo passasse. No entanto, para quem tem uma vida normalmente cheia de boas e normais vivências, trinta anos parece nada. Sendo que, para quem tem uma boa memória, torna-se um tempo preenchido. E quem tem mais de quarenta e me lê, vai concordar comigo.
Neste mes de junho, completaram-se 38 anos da conquista, pelo futebol brasileiro, do tricampeonato mundial de futebol, em 70 no México. Das copas vencidas pelo Brasil, a de 58 foi vibrante, mas é remota na distância do tempo e as comunicações ainda eram precárias. Lembro-me bem da escalação do time feita pelo dorminhoco Feola: Gilmar, DeSordi (Djalma Santos) e Bellini; Nilton Santos, Zito e Orlando; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. Bem como, lembro-me da última partida, com a dona da casa Suécia, a qual, depois dos primeiros lances irradiados por Mendes Ribeiro, eu, naquele dia um guri muito ansioso, desisti de escutar e fui para o fundo pátio; guiando-me na vitória apenas pelos fogos de artifício que ouvia em meio ao silêncio pré-eruptivo que tomava conta da cidade. Já a de 62 não teve o mesmo gosto; sem Pelé, ídolo maior de todos nós. Lembro e alguns também, das caminhonetes Kombi com emblema da CBD que passaram por Bagé, rumo ao Chile, levando alguns membros da delegação e a rouparia; mas teve pouca emoção para mim. Quanto a de 94, esta foi a que teve menos gosto, pois foi ganha nos penaltis e porque o adversário errou a cobrança.
Mas, a Copa de 70 não, esta foi emoção pura, proporcionada pela maior seleção de futebol que jamais se viu, com arte e desenvoltura. Dela, lembro dois lances cruciais: o gol do Clodoaldo, desempatando contra a seleção do Uruguai, nosso algoz em 50, que por ali ficaram. E o outro, a emoção apreensiva do gol de empate da Itália ao final do primeiro tempo, na final no Estádio Azteca, uma lembrança emocionada e angustiante. Saliente-se que, naquela copa, a televisão já proporcionava imagens e por tal, lembro de todos os gols feitos, principalmente o gol emblemático da vitória, pelo espírito esportivo, pelo companheirismo estampado e que foi proporcionado ao capitão Carlos Alberto Torres, quando Pelé rolou-lhe a bola à direita, na entrada da área. E, depois, foi a vibração que se assistiu, de brasileiros e mexicanos que adotaram o time brasileiro. O Brasil era, então, um país mergulhado em um estranho regime de governo, mas não foi só por isso que vibrou tanto. Toda a nação brasileira e quem ainda vive se lembra, goste ou não de futebol, sentiu-se envolvida.
Passados alguns anos, visitei a cidade do México. Uma capital de muita altitude; tomei Tequila, um tiro de pontaria, visitei segundo eles – o “edifício mais alto do mundo”( pela altitude da cidade), com 12 andares, assisti ao balé folcrórico do México, um espetáculo inesquecível, estive na Serra Maestra, de onde um dia descera Pancho Villa, herói nacional, conheci os murais da universidade nacional, pintados por Diego Rivera, a Catedral de Guadalupe e, entre outras coisas, visitei o Estádio Azteca. Entrei, analisei, admirei, mas, senti quase nada, lembro bem.
Nada no México me dizia a mesma coisa em emoção, só mesmo aquela da TV, anos antes; só aquela, única, a de 21 de junho de 70, compartilhada com toda a nação, até hoje inesquecível pela lembrança visual e vibração. E, sobretudo, um outro time, imbativel de cima a baixo e de frente a fundos.